quinta-feira, março 08, 2007

Crónica Dr. Bakali - in Blitz Março 2007

Estes são excertos da crónica que Dr. Bakali assina na última página do Blitz de Março. Para reflectir...
E se, de repente, tivéssemos razão?
"(...) Sete anos após o «crash» do NASDAQ, ainda lambendo as feridas inseguras do futuro que afinal não era bem o que esperámos, vi-me obrigado a pôr «a mão na consciência» e, quiçá, fazer a contabilidade (...)
Então vamos lá a umas contas rápidas e sobre o joelho: que vejo quando olho em minha volta? Vejo coisas como o Linux, o movimento Open Source, o SourceForge, o Wikipedia, o OAI (Open Arquive Initiative), o MySpace, o Second Life, o Google, o YouTube, o GMail, o Hi5, o peer-to-peer e, claro, a blogosfera. E ainda outras «ferramentas» - vamos chamar-lhes assim por agora - algumas paleolíticas, outras recentes, todas apontando na direcção de um intraduzível «empowerment» das pessoas. Não é que seja isso realmente que importa mas... afinal tinhamos razão? Tivemos quando acreditámos que além dos negócios óbvios da publicidade, do hardware e das telecomunicações, haveriam modelos sustentados de uma economia nova, baseada mais na generosidade do que na avareza? Tivemos quando acreditámos que as pessoas estariam desejosas de partilhar conhecimento e alcançar estatutos de comunicadores globais?
Aparentemente sim. Só a avareza capitalista falhou redondamente por se ter lançado vorazmente a uma árvore de frutos verdes e amargos. O resto era uma questão de tempo: de tempo de desenvolvimento das tecnologias e de disseminação da largura de banda. Tempo de habituação a novos paradigmas e de maturação daqueles que, num dia já remoto, John Perry Barlow chamou de «nativos» do Ciberespaço. Os filhos da minha geração já não conseguem conceber um mundo sem redes. É tão absurdo como imaginar televisores a preto e branco e telefones com um disco que se gira para marcar números. (...)
Estou, pois, a confessar um inebriante e renovado optimismo. (...)
Porém, e o problema é que não há bela sem senão, devo dar o alerta para o que se mantém neste maravilhoso mundo como a parte invisível do iceberg. Há certas ideias das quais o poder nunca desiste e o nosso Titanic particular é a tecnologia, ou mais especificamente, o controlo da tecnologia. Há dez anos, mais coisa menos coisa, falou-se muito do cartão de identificação único. Tal como muitas das coisas que hoje celebro, foi um conceito categorizado «fora do tempo» e esquecido pelo estúpido e fascizante que é. Nos anos que correm, a ideia volta. É este o dilema... já estou como McLuhan: «não sou optimista nem pessimista, sou apocalíptico». E o mestre tinha razão."